Paraíso da Tuiuti faz referências a Lula no samba-enredo “O Salvador da Pátria”

A Paraíso da Tuiuti vai levar para a Sapucaí um enredo que faz referência ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O samba “O Salvador da Pátria”, tema do desfile deste ano, assinado pelo carnavalesco Jack Vasconcelo, traz como protagonista o famoso bode Ioiô. O animal chegou em Fortaleza em 1915 trazido por retirantes sertanejos e passou a viver nas ruas da cidade. Todos os dias ele fazia o mesmo percurso – daí o nome Ioiô – entre a Praça do Ferreira e a Praia de Iracema.

O bode se tornou estimado pelos boêmios da época que lhe davam petiscos e cachaça para beber, mas era cuidado especialmente por José de Magalhães Porto, representante do industrial Delmiro Gouveia. Em 1922, quando a eleição ainda era feita por cédulas de papel, Ioiô foi eleito vereador como uma forma de protesto à política local. Mas, obviamente, nunca chegou a exercer o cargo. O animal faleceu em 1931, empalhado e doado ao acervo do Museu do Ceará, onde está exposto para os visitantes.

Além de Ioiô, o samba-enredo da Tuiuti faz menções a Lula, mas sem citar o nome do ex-presidente. Assim como Ioiô, Lula foi retirante e fez o percurso do interior com a família para a cidade em busca de sobrevivência.

“Vendeu-se o Brasil num palanque da praça/ E ao homem serviu ferro, lodo e mordaça/ Vendeu-se o Brasil do sertão até o mangue/ E o homem servil verteu lágrimas de sangue/ Do nada um bode vindo lá do interior/ Destino pobre, nordestino sonhador/ Vazou da fome, retirante ao Deus dará”, são alguns trechos do samba enredo finalizado.

Em maio do ano passado, ao divulgar a sinopse (que pode ser lida ao final desta matéria), Jack Vasconcelos escreveu: “Vocês que fazem parte dessa massa irão conhecer um mito de verdade: nordestino, barbudo, baixinho, de origem pobre, amado pelos humildes e por intelectuais, incomodou a elite e foi condenado a virar símbolo da identidade de um povo. Um herói da resistência!”, pontuou o carnavalesco no texto, usando trecho de “Admirável Gado Novo”, de Zé Ramalho.

Em 2018 a Tuiutí ficou em segundo lugar com a apresentação do enredo sobre os 130 anos da abolição da escravatura no Brasil, completados no ano passado. O desfile fez críticas à Reforma Trabalhista e ao então presidente Michel Temer, representando pelo professor de história Leonardo Morais vestido com terno, faixa previdencial e com o resto pintando de vampiro.

Em entrevista ao portal Carnavalesco, publicada neste final de semana, Vasconcelos pontuou que taxar seu mais recente enredo de esquerdista é “ser pobre”. “Eu acho que é um enredo alinhado com o pensamento do mais pobre, do cara que não tem voz, que precisa lutar para não ser excluído. Taxar de esquerda eu acho que é ser pobre. Mas eu não me ofendo com isso. Acho legal e gosto”, pontuou.

Ao ser questionado se o ex-presidente Lula é um personagem implícito na sua sinopse, arrematou: “Eu estou falando de um personagem barbudo, que veio do Nordeste, incomodou a elite e foi representante do povo. O bode Ioiô foi tudo isso”.

A Paraíso do Tuiuti entrará na Marquês de Sapucaí a partir das 1h35 na madrugada desta terça-feira (05).

Leia a sinopse na íntegra:

O SALVADOR DA PÁTRIA
JACK VASCONCELOS – CARNAVALESCO

Vocês que fazem parte dessa massa irão conhecer um mito de verdade: nordestino, barbudo, baixinho, de origem pobre, amado pelos humildes e por intelectuais, incomodou a elite e foi condenado a virar símbolo da identidade de um povo. Um herói da resistência!

Não posso provar, mas tenho total convicção da autenticidade de tudo o que a ele atribuíram…

Não se sabe muito bem de qual paragem veio aquele cabra, ou melhor, bode. Dizem que era retirante da grande seca no sertão cearense imortalizada pela escritora Rachel de Queiróz, em O Quinze. Naqueles tempos de República quase balzaquiana, o Governo interceptava as procissões de fugitivos da miséria. Com medo de uma invasão furiosa, devido à fome que consumia aqueles esquecidos teimosos em se fazerem lembrar, pastorava o povaréu num campo de concentração antes que chegassem até a cidade. Porém, como o sertanejo é, acima de tudo, um forte, quando viu a terra ardendo e sentiu a baforada do Zé Maria no cangote o bode bumbou até Fortaleza com a coragem e a cara.

Penou, mas chegou.

Sentiu a brisa fresca do litoral acariciar aquela carcaça sofrida, castigada. Deixou para trás o passado capiongo, quando foi comprado por José de Magalhães Porto, representante do industrial Delmiro Gouveia, correspondente da empresa britânica que comercializava couros, peles, sementes de algodão e borracha, a Rossbach Brazil Company, localizada na Rua Dragão do Mar, Praia do Peixe. Dali virou mascote com direito à liberdade de ir e vir que, aliás, era bem praticada. Apreciava o movimento de barcos e jangadas enquanto perambulava entre os pescadores e seguia o aroma dos tabuleiros das merendeiras, tanto que os populares da região logo se afeiçoaram ao bichim. Dizem até ter remoçado em sua nova vida à beira-mar.

Ao cair da tarde, arribava pra Praça do Ferreira sassaricar com os artistas e intelectuais, herdeiros da Padaria Espiritual, no Café Java. Os boêmios acreditavam ser o poeta Paulo Laranjeira, reencarnado depois que o cabrão reagiu ao ouvir uma composição feita pelo desencarnado em homenagem a sua decepção amorosa. Desde então, o bode caiu nos braços da boemia. Bebericava, pitava, serestava pelas ruas, vielas e mafuás, botando boneco noite a fora.

De tanto vai e vem passou a ser chamado de Ioiô.

E lá se ia o bode Ioiô bater seus cascos Belle Époque alencariana adentro, sem a menor cerimônia, entre as modas copiadas do estrangeiro pelas “pessoas de bem” da sociedade. Passeou de bonde elétrico, frequentou o Theatro José de Alencar, participou de saraus literários e até comeu a fita inaugural do Cine Moderno.

Sentiu as Mademoiselles espilicutes exalando um perfume de civilidade europeia quando saíam da Maison Art-Nouveau em direção ao Passeio Público. Doce aroma que era constantemente interrompido pelo peculiar cheirinho de certo bode que dava rabissaca pro Código de Conduta imposto que, dentre muitas medidas disciplinadoras, proibia animais soltos nas ruas. Um Dândi sertanejo tão incômodo como as camadas pobres e marginalizadas as quais o poder desejava esconder por debaixo dos tapetes chiques para não atrapalharem o savoir-vivre nas avenidas, confeitarias, jardins, clubes e salões. Assim, velhos hábitos considerados de gente subdesenvolvida deveriam ser substituídos por novos costumes, os bons modos. Tanto cidade quanto população careciam ser modificadas, remodeladas num choque de aformoseamento. Afinal, para a elite, as maravilhas do mundo moderno não harmonizavam com a matutice do povo.

Povo, aliás, que já era mamulengo nas mãos dos poderosos, há muito tempo. A política republicana havia herdado antigos sistemas coloniais que se consolidaram em influentes famílias tradicionais e no domínio dos coronéis latifundiários, pois a prática do “manda quem pode e obedece quem tem juízo” era um tiro certeiro. Cabia à população ser tratada como gado trazido em cabresto curto, quais as aves de rapina direcionavam para onde quisessem, e cativos em currais eleitorais para que ela mesma sustentasse o sistema que a prejudicava.

Com um cenário governamental mais parecido com um covil repleto de animais nocivos ao interesse público e a feérica intervenção de aculturamento, a insatisfação popular só crescia. Até que a resposta do povaréu veio em forma de protesto no mais inesperado momento: nas eleições. Ao abrir a urna eleitoral se ouviu o berro do povo escrito nos votos que elegeram o bode Ioiô para vereador na Câmara Municipal de Fortaleza. Um deboche com os poderosos. Molecagem porreta! Sem ter feito campanha um animal ruminante era eleito pelo povo como seu representante! E, de fato, há muito já era um símbolo da identificação sertaneja que a elite (ameaçada pelas cédulas de papel) queria suprimir.

Contam que o fuá já estava instalado quando os poderosos articularam um golpe para que o bode Ioiô sofresse um impedimento e não assumisse o cargo ao qual foi eleito legitimamente, em processo democrático. Porém, a justificativa jurídica de incompatibilidade de espécie não livrou os políticos daquele vexame retumbante e só alimentou o monstro: Ioiô saiu da vida pública para entrar na história.

O bode mitou. Até hoje seus admiradores o defendem como ícone de empoderamento popular, representatividade dos marginalizados. Segue comandando a revolução do inconformismo seja nas lembranças dos memorialistas, nos cordéis, nos livros, na sala de um museu ou pelos blocos carnavalescos. Ioiô é a imagem da resiliência de um povo que faz graça até da própria desgraça e, com esse jeitinho inigualável, nos revela o genuíno salvador da nossa pátria: o bom humor.

[Isso aqui, Ioiô, foi um pouquinho de Brasil].

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